Na realidade, o valor e a preocupação constante que atribuímos à opinião alheia ultrapassam, em regra, quase todo objetivo ponderado, de modo que ela pode ser vista como uma espécie de mania generalizada ou, antes, inata.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
NATUREZA
Natura é uma expressão correta, porém eufemística: com igual direito, podeira chamar-se mortura.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
A MASSA
A grande massa pensa muito pouco, porque lhe faltam o tempo e a prática necessários. Porém, assim conserva por muito mais tempo seus erros; por outro lado, não é, como o mundo dos eruditos, um catavento comandado pela rosa-dos-ventos que muda diariamente de opinião. E isso é muito bom: pois imaginar a grande e pesada massa num movimento tão rápido é um pensamento assustador, sobretudo quando se leva em consideração tudo o que poderia arrebatar e derrubar com suas mudanças.
terça-feira, 16 de março de 2010
LEITURA
Em relação à nossa leitura, a arte de não ler é extremamente importante. Ela consiste em não aceitar o que o público mais amplo sempre lê, como panfletos políticos ou literários, romances, poesias e similares, que só fazem rumor naquele momento e até atingem muitas edições no seu primeiro e último ano de vida.
segunda-feira, 8 de março de 2010
MAIS KANT
Ao se encontrar na casa do pai da moça que corteja e ser indagado sobre o motivo de sua inesperada presença, o indivíduo em questão, se não for tolo, não hesita em dar uma desculpa qualquer.
domingo, 7 de março de 2010
O JOGO DE CARTAS
De modo bastante peculiar, a necessidade de excitar a vontade revela-se na invenção e na preservação do jogo de cartas, que constitui a expressão mais autêntica do lado lastimável da humanidade.
terça-feira, 2 de março de 2010
IMPERATIVO CATEGÓRICO – UMA ALMOFADA PARA ASNOS
Já está mais do que na hora de a ética ser, de uma vez por todas, submetida a um sério interrogatório. Há mais de meio século ela repousa naquela cômoda almofada que Kant lhe preparara: o imperativo categórico da razão prática. Nos nossos dias, esse imperativo costuma ser apresentado sob o título menos suntuoso, porém mais fácil e corrente, de “lei moral”, sob a qual, após uma ligeira reverência à razão e à experiência, ele se insinua sem ser visto. Entretanto, uma vez dentro de casa, não cessa de dar ordens e comandos, sem fornecer muitas explicações. O fato de Kant , enquanto inventor do imperativo e depois tê-lo usado para eliminar erros grosseiros, ficar tranquilo com ele era justo e necessário. Porém, não é nada fácil ter de ver até os asnos rolarem na almofada preparada por ele e desde então cada vez mais acolhedora: refiro-me aos compiladores cotidianos de compêndios que, com a confiança serena que acompanha a falta de juízo, presumem ter fundado a ética quando se reportam apenas àquela lei moral que, segundo eles, reside na nossa razão, e depois quando se estendem tranquilos sobre aquele tecido de frases prolixas e confusas, com o qual conseguem tornar incompreensíveis as situações mais claras e simples da vida. Ao empreender tal iniciativa, nem chegam a se questionar seriamente se tal lei moral também estaria de fato escrita, como um código confortável da moral, na nossa cabeça, no nosso peito ou no nosso coração. Sendo assim, confesso o prazer peculiar que sinto ao tirar da moral aquela larga almofada e declaro com toda franqueza meu propósito de demonstrar que a razão prática e o imperativo categórico de Kant constituem hipóteses totalmente injustificadas, infundadas e inventadas.
domingo, 13 de dezembro de 2009
HEGELIANISMO
Uma filosofia cuja tese fundamental prega “O ser é o nada” é digna de um hospício. Em qualquer lugar fora da Alemanha é justamente para o hospício que a remeteriam.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
FÉ E SABER 2
O saber é feito de uma matéria mais dura do que a fé, de modo que, quando colidem, a última se quebra.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
ESCRITORES NEGLIGENTES
Muitos escrevem do mesmo modo como os pólipos coralinos se formam: um período vai se acrescentando ao outro até onde Deus quiser.